Antes de usar o Express — o framework que simplifica tudo — é fundamental entender o que acontece por baixo dos panos. Todo servidor web em Node.js, seja Express, Fastify ou qualquer outro, é construído sobre o módulo nativo http. Entender esse módulo faz você um desenvolvedor melhor, capaz de depurar problemas que frameworks escondem.
Neste artigo vamos construir um servidor HTTP do zero, entender o ciclo de requisição e resposta, e gradualmente adicionar funcionalidades até termos uma mini API funcional.
O protocolo HTTP em 60 segundos
Antes do código, o conceito:
CLIENTE (navegador/fetch) SERVIDOR (Node.js)
─────────────────────────────────────────────────────
1. Cliente envia uma REQUISIÇÃO:
GET /usuarios HTTP/1.1
Host: localhost:3000
Accept: application/json
2. Servidor processa e envia uma RESPOSTA:
HTTP/1.1 200 OK
Content-Type: application/json
[{ "id": 1, "nome": "Ana" }]
Toda comunicação HTTP segue este padrão:
Método + URL + Headers → Corpo (opcional)
Status + Headers → Corpo (opcional)
O primeiro servidor
// servidor.js
const http = require("http");
const servidor = http.createServer((req, res) => {
// req → IncomingMessage — a requisição que chegou
// res → ServerResponse — a resposta que vamos enviar
res.writeHead(200, { "Content-Type": "text/plain; charset=utf-8" });
res.end("Olá, mundo!");
});
servidor.listen(3000, () => {
console.log("🚀 Servidor rodando em http://localhost:3000");
});
node servidor.js
# Abra http://localhost:3000 no navegador
Três coisas aconteceram:
createServerregistrou uma função que será chamada a cada requisiçãolisten(3000)fez o servidor começar a escutar conexões na porta 3000- O callback é chamado quando o servidor está pronto
Inspecionando a requisição
O objeto req contém tudo sobre o que o cliente enviou:
const http = require("http");
const servidor = http.createServer((req, res) => {
console.log("─".repeat(40));
console.log("Método:", req.method); // GET, POST, PUT, DELETE...
console.log("URL:", req.url); // /usuarios/1?ativo=true
console.log("Headers:", req.headers); // { host, accept, ... }
console.log("HTTP Version:", req.httpVersion); // 1.1
// Parseando a URL manualmente
const url = new URL(req.url, `http://${req.headers.host}`);
console.log("Pathname:", url.pathname); // /usuarios/1
console.log("Search:", url.search); // ?ativo=true
console.log("Params:", url.searchParams.get("ativo")); // "true"
res.writeHead(200, { "Content-Type": "text/plain" });
res.end("OK");
});
servidor.listen(3000, () => console.log("http://localhost:3000"));
Construindo a resposta
O objeto res controla tudo que enviamos de volta:
// Definindo status e headers
res.statusCode = 200;
res.setHeader("Content-Type", "application/json");
res.setHeader("X-Powered-By", "Node.js");
// Atalho — define status e múltiplos headers de uma vez
res.writeHead(201, {
"Content-Type": "application/json",
"Location": "/usuarios/42",
});
// Enviando o corpo — finaliza a resposta
res.end(JSON.stringify({ id: 42, nome: "Ana" }));
// Ou em partes (útil para streams)
res.write("parte 1");
res.write("parte 2");
res.end("parte final");
Lendo o corpo da requisição
Ao contrário da URL e dos headers, o corpo chega em pedaços (chunks) via stream:
function lerCorpo(req) {
return new Promise((resolve, reject) => {
const chunks = [];
req.on("data", (chunk) => {
chunks.push(chunk);
// Proteção contra corpos muito grandes (10MB)
const totalBytes = chunks.reduce((acc, c) => acc + c.length, 0);
if (totalBytes > 10 * 1024 * 1024) {
reject(new Error("Corpo da requisição muito grande."));
}
});
req.on("end", () => {
const corpo = Buffer.concat(chunks).toString("utf-8");
resolve(corpo);
});
req.on("error", reject);
});
}
// Usando
const corpo = await lerCorpo(req);
const dados = JSON.parse(corpo);
Roteamento manual
O servidor precisa responder diferente dependendo da URL e do método:
const http = require("http");
const { URL } = require("url");
// Banco de dados em memória
let usuarios = [
{ id: 1, nome: "Ana Paula", email: "ana@email.com" },
{ id: 2, nome: "Carlos Silva", email: "carlos@email.com" },
];
let proximoId = 3;
// ── Utilitários ─────────────────────────────────
function lerCorpo(req) {
return new Promise((resolve, reject) => {
const chunks = [];
req.on("data", chunk => chunks.push(chunk));
req.on("end", () => resolve(Buffer.concat(chunks).toString("utf-8")));
req.on("error", reject);
});
}
function enviarJSON(res, status, dados) {
res.writeHead(status, {
"Content-Type": "application/json; charset=utf-8",
"Access-Control-Allow-Origin": "*",
});
res.end(JSON.stringify(dados, null, 2));
}
function enviarErro(res, status, mensagem) {
enviarJSON(res, status, { erro: mensagem, status });
}
function extrairId(pathname) {
const partes = pathname.split("/").filter(Boolean);
// /usuarios/42 → ["usuarios", "42"]
const id = Number(partes[1]);
return isNaN(id) ? null : id;
}
// ── Roteador ────────────────────────────────────
async function roteador(req, res) {
const url = new URL(req.url, `http://${req.headers.host}`);
const pathname = url.pathname;
const metodo = req.method;
console.log(`[${new Date().toLocaleTimeString("pt-BR")}] ${metodo} ${pathname}`);
// CORS preflight
if (metodo === "OPTIONS") {
res.writeHead(204, {
"Access-Control-Allow-Origin": "*",
"Access-Control-Allow-Methods": "GET, POST, PUT, DELETE, OPTIONS",
"Access-Control-Allow-Headers": "Content-Type",
});
return res.end();
}
// GET /
if (pathname === "/" && metodo === "GET") {
return enviarJSON(res, 200, {
mensagem: "API funcionando!",
versao: "1.0.0",
rotas: [
"GET /usuarios",
"GET /usuarios/:id",
"POST /usuarios",
"PUT /usuarios/:id",
"DELETE /usuarios/:id",
],
});
}
// GET /usuarios
if (pathname === "/usuarios" && metodo === "GET") {
const busca = url.searchParams.get("busca")?.toLowerCase();
const lista = busca
? usuarios.filter(u =>
u.nome.toLowerCase().includes(busca) ||
u.email.toLowerCase().includes(busca)
)
: usuarios;
return enviarJSON(res, 200, {
dados: lista,
total: lista.length,
});
}
// GET /usuarios/:id
if (pathname.match(/^\/usuarios\/\d+$/) && metodo === "GET") {
const id = extrairId(pathname);
const usuario = usuarios.find(u => u.id === id);
if (!usuario) return enviarErro(res, 404, `Usuário ${id} não encontrado.`);
return enviarJSON(res, 200, usuario);
}
// POST /usuarios
if (pathname === "/usuarios" && metodo === "POST") {
let corpo;
try {
const texto = await lerCorpo(req);
corpo = JSON.parse(texto);
} catch {
return enviarErro(res, 400, "Corpo da requisição inválido. Envie JSON válido.");
}
// Validação
const erros = [];
if (!corpo.nome?.trim()) erros.push("nome é obrigatório.");
if (!corpo.email?.trim()) erros.push("email é obrigatório.");
if (corpo.email && !corpo.email.includes("@")) erros.push("email inválido.");
if (usuarios.some(u => u.email === corpo.email)) erros.push("email já cadastrado.");
if (erros.length > 0) {
return enviarJSON(res, 422, { erro: "Dados inválidos.", detalhes: erros });
}
const novoUsuario = {
id: proximoId++,
nome: corpo.nome.trim(),
email: corpo.email.trim().toLowerCase(),
criadoEm: new Date().toISOString(),
};
usuarios.push(novoUsuario);
res.setHeader("Location", `/usuarios/${novoUsuario.id}`);
return enviarJSON(res, 201, novoUsuario);
}
// PUT /usuarios/:id
if (pathname.match(/^\/usuarios\/\d+$/) && metodo === "PUT") {
const id = extrairId(pathname);
const indice = usuarios.findIndex(u => u.id === id);
if (indice === -1) return enviarErro(res, 404, `Usuário ${id} não encontrado.`);
let corpo;
try {
corpo = JSON.parse(await lerCorpo(req));
} catch {
return enviarErro(res, 400, "JSON inválido.");
}
const erros = [];
if (corpo.nome !== undefined && !corpo.nome.trim()) erros.push("nome não pode ser vazio.");
if (corpo.email !== undefined && !corpo.email.includes("@")) erros.push("email inválido.");
if (corpo.email && usuarios.some(u => u.email === corpo.email && u.id !== id)) {
erros.push("email já cadastrado por outro usuário.");
}
if (erros.length > 0) {
return enviarJSON(res, 422, { erro: "Dados inválidos.", detalhes: erros });
}
usuarios[indice] = {
...usuarios[indice],
...(corpo.nome && { nome: corpo.nome.trim() }),
...(corpo.email && { email: corpo.email.trim().toLowerCase() }),
atualizadoEm: new Date().toISOString(),
};
return enviarJSON(res, 200, usuarios[indice]);
}
// DELETE /usuarios/:id
if (pathname.match(/^\/usuarios\/\d+$/) && metodo === "DELETE") {
const id = extrairId(pathname);
const indice = usuarios.findIndex(u => u.id === id);
if (indice === -1) return enviarErro(res, 404, `Usuário ${id} não encontrado.`);
const removido = usuarios.splice(indice, 1)[0];
return enviarJSON(res, 200, {
mensagem: `Usuário "${removido.nome}" removido com sucesso.`,
});
}
// Rota não encontrada
enviarErro(res, 404, `Rota ${metodo} ${pathname} não encontrada.`);
}
// ── Servidor ─────────────────────────────────────
const servidor = http.createServer(async (req, res) => {
try {
await roteador(req, res);
} catch (erro) {
console.error("Erro interno:", erro);
enviarErro(res, 500, "Erro interno do servidor.");
}
});
servidor.listen(3000, () => {
console.log("🚀 API rodando em http://localhost:3000");
console.log("📋 Rotas disponíveis:");
console.log(" GET /usuarios");
console.log(" GET /usuarios/:id");
console.log(" POST /usuarios");
console.log(" PUT /usuarios/:id");
console.log(" DELETE /usuarios/:id");
});
Testando a API
# Instale o curl ou use o httpie para testar
# GET todos
curl http://localhost:3000/usuarios
# GET com busca
curl "http://localhost:3000/usuarios?busca=ana"
# GET por ID
curl http://localhost:3000/usuarios/1
# POST — criar
curl -X POST http://localhost:3000/usuarios \
-H "Content-Type: application/json" \
-d '{"nome": "Beatriz", "email": "bia@email.com"}'
# PUT — atualizar
curl -X PUT http://localhost:3000/usuarios/1 \
-H "Content-Type: application/json" \
-d '{"nome": "Ana Paula Souza"}'
# DELETE
curl -X DELETE http://localhost:3000/usuarios/2
Ou crie um arquivo testar.js:
// testar.js
const BASE = "http://localhost:3000";
async function req(metodo, url, corpo = null) {
const opcoes = {
method: metodo,
headers: { "Content-Type": "application/json" },
};
if (corpo) opcoes.body = JSON.stringify(corpo);
const res = await fetch(`${BASE}${url}`, opcoes);
const dados = await res.json();
console.log(`\n${metodo} ${url} → ${res.status}`);
console.log(JSON.stringify(dados, null, 2));
return dados;
}
async function main() {
await req("GET", "/");
await req("GET", "/usuarios");
await req("POST", "/usuarios", { nome: "Beatriz", email: "bia@email.com" });
await req("GET", "/usuarios/3");
await req("PUT", "/usuarios/1", { nome: "Ana Paula Souza" });
await req("DELETE", "/usuarios/2");
await req("GET", "/usuarios");
await req("GET", "/usuarios/99"); // teste de 404
}
main().catch(console.error);
node testar.js
Servindo arquivos estáticos
const http = require("http");
const fs = require("fs/promises");
const path = require("path");
const TIPOS_MIME = {
".html": "text/html; charset=utf-8",
".css": "text/css",
".js": "application/javascript",
".json": "application/json",
".png": "image/png",
".jpg": "image/jpeg",
".svg": "image/svg+xml",
".ico": "image/x-icon",
".txt": "text/plain",
};
const PASTA_PUBLICA = path.join(__dirname, "public");
async function servirArquivo(res, caminhoRelativo) {
const caminho = path.join(PASTA_PUBLICA, caminhoRelativo);
// Segurança — evita path traversal (../../etc/passwd)
if (!caminho.startsWith(PASTA_PUBLICA)) {
res.writeHead(403);
return res.end("Acesso negado.");
}
try {
const conteudo = await fs.readFile(caminho);
const ext = path.extname(caminho);
const tipo = TIPOS_MIME[ext] || "application/octet-stream";
res.writeHead(200, { "Content-Type": tipo });
res.end(conteudo);
} catch (erro) {
if (erro.code === "ENOENT") {
res.writeHead(404);
res.end("Arquivo não encontrado.");
} else {
res.writeHead(500);
res.end("Erro ao ler arquivo.");
}
}
}
const servidor = http.createServer(async (req, res) => {
const url = new URL(req.url, `http://${req.headers.host}`);
let pathname = url.pathname;
// Redireciona / para index.html
if (pathname === "/") pathname = "/index.html";
await servirArquivo(res, pathname);
});
servidor.listen(3000, () => console.log("http://localhost:3000"));
Eventos do servidor
const servidor = http.createServer(handler);
// Quando uma conexão TCP é estabelecida
servidor.on("connection", (socket) => {
console.log(`Nova conexão de ${socket.remoteAddress}`);
});
// Quando ocorre um erro no servidor
servidor.on("error", (erro) => {
if (erro.code === "EADDRINUSE") {
console.error(`❌ Porta 3000 já está em uso.`);
process.exit(1);
}
console.error("Erro no servidor:", erro);
});
// Quando o servidor fecha
servidor.on("close", () => {
console.log("Servidor encerrado.");
});
servidor.listen(3000);
// Encerramento gracioso — termina requisições em andamento
process.on("SIGTERM", () => {
console.log("Encerrando servidor...");
servidor.close(() => {
console.log("Servidor encerrado com sucesso.");
process.exit(0);
});
});
As limitações do http puro — por que existe o Express
Depois de tudo que construímos, ficam claras as limitações do módulo http puro:
Problema Com http puro
──────────────────────────────────────────────────────
Roteamento if/else manual e verboso
Parâmetros de URL (/users/:id) Regex manual
Middleware (logging, auth, cors) Encadeamento manual
Body parsing (JSON, form) Stream manual
Upload de arquivos Muito complexo
Sessões e cookies Manual
Compressão (gzip) Manual
HTTPS Configuração trabalhosa
O Express resolve a maior parte desses problemas com APIs limpas e elegantes, e os que sobram têm middleware pronto — compression para gzip, cookie-parser e express-session para sessão. O HTTPS é a exceção: ele continua sendo o mesmo trabalho de sempre, feito com o módulo https ou, o mais comum em produção, delegado ao proxy reverso. E agora que você entende o que há por baixo, vai usar o Express com muito mais consciência.
Tarefa para você
Estenda a mini API de usuários adicionando:
// 1. Persistência em arquivo JSON
// - Ao iniciar, carrega usuarios.json se existir
// - Após cada POST, PUT, DELETE salva no arquivo
// - Use fs/promises para leitura e escrita
// 2. Paginação no GET /usuarios
// GET /usuarios?pagina=1&por_pagina=10
// Resposta deve incluir:
// { dados, total, pagina, por_pagina, total_paginas }
// 3. Rota GET /usuarios/:id/posts
// Busca posts do usuário na JSONPlaceholder:
// https://jsonplaceholder.typicode.com/posts?userId={id}
// 4. Middleware de logging
// Crie uma função que envolve o roteador e registra:
// [timestamp] METHOD /path → STATUS (Xms)
// 5. Tratamento de Content-Type
// Rejeite requisições POST/PUT que não enviem
// Content-Type: application/json com erro 415
Ver solução — as cinco extensões da API, sem sair do módulo http
// ---- servidor.js
const http = require("node:http");
const fs = require("fs/promises");
const path = require("node:path");
const ARQUIVO = path.join(__dirname, "usuarios.json");
const PORTA = Number(process.env.PORT ?? 3000);
let usuarios = [];
let proximoId = 1;
// ---------------------------------------------------------------
// 1 — persistência em arquivo
// ---------------------------------------------------------------
async function carregar() {
try {
const conteudo = await fs.readFile(ARQUIVO, "utf-8");
usuarios = JSON.parse(conteudo);
proximoId = usuarios.reduce((maior, u) => Math.max(maior, u.id), 0) + 1;
} catch (erro) {
// ENOENT na primeira execução é esperado: o arquivo ainda não
// existe. Qualquer outro erro (JSON corrompido, permissão) precisa
// aparecer, senão o servidor sobe fingindo que o banco está vazio
// e o próximo salvamento apaga tudo.
if (erro.code !== "ENOENT") throw erro;
usuarios = [];
}
}
// Salvamento serializado: duas requisições simultâneas escrevendo no
// mesmo arquivo produzem JSON truncado. A fila garante uma de cada vez.
let escrevendo = Promise.resolve();
function salvar() {
escrevendo = escrevendo.then(async () => {
const temporario = `${ARQUIVO}.tmp`;
// Escreve no temporário e RENOMEIA: rename é atômico no mesmo
// sistema de arquivos. Se o processo morrer no meio, o arquivo
// bom continua intacto em vez de virar metade de um JSON.
await fs.writeFile(temporario, JSON.stringify(usuarios, null, 2), "utf-8");
await fs.rename(temporario, ARQUIVO);
});
return escrevendo;
}
// ---------------------------------------------------------------
// Utilidades de resposta
// ---------------------------------------------------------------
function responder(res, status, dados) {
const corpo = dados === null ? "" : JSON.stringify(dados);
res.writeHead(status, {
"Content-Type": "application/json; charset=utf-8",
"Content-Length": Buffer.byteLength(corpo), // bytes, não caracteres
});
res.end(corpo);
}
function lerCorpo(req) {
return new Promise((resolver, rejeitar) => {
const partes = [];
let tamanho = 0;
req.on("data", (parte) => {
tamanho += parte.length;
// Sem teto, um POST de 2 GB derruba o processo por falta de
// memória. É a defesa mais barata que existe.
if (tamanho > 1_000_000) {
rejeitar(Object.assign(new Error("Corpo grande demais"), { status: 413 }));
req.destroy();
return;
}
partes.push(parte);
});
req.on("error", rejeitar);
req.on("end", () => {
const texto = Buffer.concat(partes).toString("utf-8");
if (texto === "") return resolver(null);
try {
resolver(JSON.parse(texto));
} catch {
rejeitar(Object.assign(new Error("JSON inválido"), { status: 400 }));
}
});
});
}
// ---------------------------------------------------------------
// 5 — Content-Type obrigatório em POST e PUT
// ---------------------------------------------------------------
function exigirJSON(req) {
if (!["POST", "PUT", "PATCH"].includes(req.method)) return;
const tipo = req.headers["content-type"] ?? "";
// startsWith e não ===: o header legítimo pode vir como
// "application/json; charset=utf-8".
if (!tipo.toLowerCase().startsWith("application/json")) {
throw Object.assign(
new Error("Use Content-Type: application/json"),
{ status: 415 }
);
}
}
// ---------------------------------------------------------------
// 2 — paginação
// ---------------------------------------------------------------
function paginar(lista, parametros) {
const pagina = Math.max(1, Number(parametros.get("pagina") ?? 1) || 1);
const porPagina = Math.min(
100, // teto: sem ele, ?por_pagina=999999 vira um jeito fácil de derrubar a API
Math.max(1, Number(parametros.get("por_pagina") ?? 10) || 10)
);
const inicio = (pagina - 1) * porPagina;
return {
dados: lista.slice(inicio, inicio + porPagina),
total: lista.length,
pagina,
por_pagina: porPagina,
total_paginas: Math.ceil(lista.length / porPagina) || 1,
};
}
// ---------------------------------------------------------------
// 3 — posts do usuário, vindos de fora
// ---------------------------------------------------------------
async function buscarPosts(id) {
// Timeout explícito: sem ele, uma API externa lenta segura a
// requisição do seu usuário até o navegador desistir.
const controlador = new AbortController();
const limite = setTimeout(() => controlador.abort(), 5000);
try {
const resposta = await fetch(
`https://jsonplaceholder.typicode.com/posts?userId=${id}`,
{ signal: controlador.signal }
);
if (!resposta.ok) {
throw Object.assign(
new Error(`API externa respondeu ${resposta.status}`),
{ status: 502 } // 502, não 500: o defeito é de terceiro
);
}
return resposta.json();
} catch (erro) {
if (erro.name === "AbortError") {
throw Object.assign(new Error("API externa demorou demais"), { status: 504 });
}
throw erro;
} finally {
clearTimeout(limite);
}
}
// ---------------------------------------------------------------
// 4 — middleware de log, envolvendo o roteador
// ---------------------------------------------------------------
function comLog(roteador) {
return async (req, res) => {
const inicio = process.hrtime.bigint();
// O log só pode sair quando a resposta terminar — antes disso o
// status ainda não existe.
res.on("finish", () => {
const ms = Number(process.hrtime.bigint() - inicio) / 1e6;
const carimbo = new Date().toISOString();
console.log(
`[${carimbo}] ${req.method} ${req.url} → ${res.statusCode} (${ms.toFixed(1)}ms)`
);
});
return roteador(req, res);
};
}
// ---------------------------------------------------------------
// O roteador
// ---------------------------------------------------------------
async function rotear(req, res) {
const url = new URL(req.url, `http://${req.headers.host}`);
const partes = url.pathname.split("/").filter(Boolean);
exigirJSON(req);
// GET /usuarios
if (req.method === "GET" && partes.length === 1 && partes[0] === "usuarios") {
return responder(res, 200, paginar(usuarios, url.searchParams));
}
// GET /usuarios/:id/posts
if (req.method === "GET" && partes.length === 3 && partes[2] === "posts") {
const id = Number(partes[1]);
const usuario = usuarios.find((u) => u.id === id);
if (!usuario) throw Object.assign(new Error("Usuário não encontrado"), { status: 404 });
return responder(res, 200, { usuario: usuario.nome, posts: await buscarPosts(id) });
}
// GET /usuarios/:id
if (req.method === "GET" && partes.length === 2 && partes[0] === "usuarios") {
const usuario = usuarios.find((u) => u.id === Number(partes[1]));
if (!usuario) throw Object.assign(new Error("Usuário não encontrado"), { status: 404 });
return responder(res, 200, usuario);
}
// POST /usuarios
if (req.method === "POST" && partes.length === 1 && partes[0] === "usuarios") {
const corpo = await lerCorpo(req);
if (!corpo?.nome || !corpo?.email) {
throw Object.assign(new Error("nome e email são obrigatórios"), { status: 422 });
}
const novo = { id: proximoId++, nome: corpo.nome, email: corpo.email };
usuarios.push(novo);
await salvar();
res.setHeader("Location", `/usuarios/${novo.id}`); // 201 pede o Location
return responder(res, 201, novo);
}
// PUT /usuarios/:id
if (req.method === "PUT" && partes.length === 2) {
const indice = usuarios.findIndex((u) => u.id === Number(partes[1]));
if (indice === -1) throw Object.assign(new Error("Usuário não encontrado"), { status: 404 });
const corpo = await lerCorpo(req);
usuarios[indice] = { ...usuarios[indice], ...corpo, id: usuarios[indice].id };
await salvar();
return responder(res, 200, usuarios[indice]);
}
// DELETE /usuarios/:id
if (req.method === "DELETE" && partes.length === 2) {
const indice = usuarios.findIndex((u) => u.id === Number(partes[1]));
if (indice === -1) throw Object.assign(new Error("Usuário não encontrado"), { status: 404 });
usuarios.splice(indice, 1);
await salvar();
return responder(res, 204, null); // 204 não tem corpo
}
throw Object.assign(new Error("Rota não encontrada"), { status: 404 });
}
const servidor = http.createServer(
comLog(async (req, res) => {
try {
await rotear(req, res);
} catch (erro) {
const status = erro.status ?? 500;
// Erro 500 é bug: registra o stack no servidor e mostra ao
// cliente uma mensagem genérica. Vazar stack trace numa API
// pública entrega estrutura de diretórios e versões.
if (status === 500) console.error(erro);
responder(res, status, {
erro: status === 500 ? "Erro interno" : erro.message,
});
}
})
);
carregar().then(() => {
servidor.listen(PORTA, () => console.log(`http://localhost:${PORTA}`));
});
// Encerramento limpo: sem isto, Ctrl+C mata conexões no meio e pode
// deixar o usuarios.json.tmp para trás.
process.on("SIGINT", () => {
console.log("\nencerrando...");
servidor.close(() => process.exit(0));
});
Escrever direto no arquivo final é como se perde o banco inteiro: se o processo morrer no meio do writeFile, sobra metade de um JSON e o JSON.parse do próximo boot falha. Escreva num .tmp e use rename, que é atômico — e serialize as escritas, senão duas requisições simultâneas se atropelam.
Depois de escrever o roteamento no if, ler o corpo pedaço a pedaço e definir o Content-Type à mão, fica claro o que um framework faz — e, o que importa mais, o que ele continua não fazendo por você. O res.end() chamado duas vezes, o Content-Length medido em bytes e não em caracteres, o Host que vem do cliente e não do servidor: são detalhes do protocolo, e eles seguem valendo com ou sem Express no caminho.
Fontes e Referências
- Node.js Docs — HTTP module: https://nodejs.org/api/http.html
- Node.js Docs — URL module: https://nodejs.org/api/url.html
- MDN Web Docs — HTTP overview: https://developer.mozilla.org/pt-BR/docs/Web/HTTP/Overview
- MDN Web Docs — HTTP response status codes: https://developer.mozilla.org/pt-BR/docs/Web/HTTP/Status
- JavaScript.info — Node.js networking: https://javascript.info/network
- Node.js Design Patterns — Mario Casciaro (Packt Publishing)
- Learning Node.js Development — Andrew Mead (Packt Publishing)
- OWASP — Path Traversal: https://owasp.org/www-community/attacks/Path_Traversal
Exercícios
Exercício 1
Um return foi esquecido. O que o cliente recebe ao pedir GET /usuarios/99, e o que aparece no terminal do servidor?
if (pathname.match(/^\/usuarios\/\d+$/) && metodo === "GET") {
const usuario = usuarios.find(u => u.id === extrairId(pathname));
if (!usuario) enviarErro(res, 404, "Usuário não encontrado.");
return enviarJSON(res, 200, usuario);
}
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✓ Resposta: O cliente recebe o 404, corretamente — e o servidor derruba um erro no terminal: Error [ERR_HTTP_HEADERS_SENT]: Cannot set headers after they are sent to the client. Sem o return, a execução não para no enviarErro: ela segue para o enviarJSON, que tenta chamar writeHead numa resposta já enviada. O primeiro end() vence e é o que o cliente vê; o segundo lança. Repare no encadeamento completo neste servidor: como o roteador está dentro de um try/catch que responde 500, o erro é capturado e o enviarErro(res, 500, ...) do catch tenta responder de novo — e falha pelo mesmo motivo, agora sem ninguém para capturar. É por isso que o artigo escreve return enviarJSON(...) em toda rota: o return não serve para devolver valor nenhum, serve para encerrar o roteador. Duas defesas valem a pena: checar res.headersSent antes de responder dentro de um manipulador de erro, e desconfiar de qualquer if de rota sem return, que é onde esse defeito nasce.
Exercício 2
Esta é a proteção de 10 MB do artigo. Um cliente envia um corpo de 2 GB. O que acontece com a memória do processo?
req.on("data", (chunk) => {
chunks.push(chunk);
const totalBytes = chunks.reduce((acc, c) => acc + c.length, 0);
if (totalBytes > 10 * 1024 * 1024) {
reject(new Error("Corpo da requisição muito grande."));
}
});
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✓ Resposta: A memória continua subindo até o processo morrer. O reject resolve a promise, não a conexão: o cliente segue enviando, o evento data segue disparando, e cada pedaço continua sendo empurrado no array. Rejeitar uma promise já rejeitada não faz nada, então nem erro aparece — a proteção informa que o limite foi ultrapassado e não impede coisa alguma. Faltam duas linhas: req.destroy(), que encerra a conexão e interrompe o fluxo na origem, e um return para não acumular o pedaço atual. Há um segundo defeito no mesmo trecho, de desempenho: o reduce percorre todos os pedaços a cada pedaço novo, o que faz o custo crescer com o quadrado do número de chunks — num corpo grande, o servidor passa mais tempo somando do que recebendo. O certo é um acumulador: tamanho += chunk.length. E vale conhecer a defesa que vem antes de todas: olhar o header Content-Length e recusar com 413 antes de ler o primeiro byte — embora ele não substitua a contagem, já que o cliente pode mentir ou usar Transfer-Encoding: chunked e não mandar header nenhum.
Exercício 3
O nome do usuário é José Café. O cliente recebe o JSON cortado no meio. Por quê?
const corpo = JSON.stringify({ id: 1, nome: "José Café" });
res.writeHead(200, {
"Content-Type": "application/json; charset=utf-8",
"Content-Length": corpo.length,
});
res.end(corpo);
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✓ Resposta: Porque Content-Length é medido em bytes e String.length conta unidades de código UTF-16. O é e o é de "José Café" ocupam dois bytes cada em UTF-8, mas contam como um caractere cada — a string tem 30 caracteres e 32 bytes. O servidor anuncia 30, o cliente lê exatamente 30 bytes e para, e o JSON chega sem os dois últimos, o que produz um erro de parse que aponta para o fim do documento e não diz nada sobre acento. O sintoma engana porque só aparece com caracteres não-ASCII: em desenvolvimento, com nomes como "Ana Silva", tudo funciona; em produção, com "José", "Conceição" e emoji, quebra. A medida correta é Buffer.byteLength(corpo), que conta os bytes da codificação de fato. Duas observações práticas: se você simplesmente não declarar o Content-Length, o Node usa Transfer-Encoding: chunked e acerta sozinho — declarar é otimização, não obrigação; e o mesmo cuidado vale para qualquer limite de tamanho, porque um campo de 500 caracteres pode passar de 1000 bytes.
Exercício 4
Esta é a proteção contra path traversal do artigo. Ela barra /../../etc/passwd. Existe alguma coisa que ela deixa passar?
const PASTA_PUBLICA = path.join(__dirname, "public");
const caminho = path.join(PASTA_PUBLICA, caminhoRelativo);
if (!caminho.startsWith(PASTA_PUBLICA)) {
res.writeHead(403);
return res.end("Acesso negado.");
}
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✓ Resposta: Deixa passar qualquer pasta irmã cujo nome comece com o mesmo prefixo. Se existir public-backup ao lado de public, o pedido /../public-backup/dump.sql resulta no caminho /app/public-backup/dump.sql, que começa com /app/public — e o startsWith aprova. O path.join faz a parte dele: ele normaliza e resolve os .., e é por isso que o ataque clássico do /etc/passwd é barrado. Quem falha é a comparação, que trata caminho como texto e ignora que o separador de diretório é o que define a fronteira. A correção é comparar com a barra incluída — caminho.startsWith(PASTA_PUBLICA + path.sep) — ou, melhor, usar path.relative(PASTA_PUBLICA, caminho) e rejeitar quando o resultado começa com .. ou é absoluto, que é a forma que funciona igual no Windows. E vale lembrar que nomes de arquivo chegam codificados: um %2e%2e%2f só vira ../ depois da decodificação, então a validação tem de acontecer sobre o valor já decodificado, nunca sobre a URL crua.
Exercício 5
Esta linha aparece em todos os exemplos do artigo. De onde vem req.headers.host, e o que um cliente mal-intencionado consegue fazer com ela?
const url = new URL(req.url, `http://${req.headers.host}`);
// e, mais adiante, num email de recuperação de senha:
const link = `${url.origin}/redefinir?token=${token}`;
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✓ Resposta: Vem do próprio cliente — Host é um cabeçalho da requisição, digitado por quem faz a chamada, e nada impede curl -H "Host: servidor-do-atacante.com". Para extrair pathname e searchParams isso é inofensivo: a base existe só porque o new URL exige uma, e o caminho vem de req.url. O problema aparece no momento em que esse valor volta para fora, como no link do email: o servidor gera https://servidor-do-atacante.com/redefinir?token=... e envia ao usuário legítimo, que clica e entrega o token de redefinição de senha. O ataque tem nome, host header injection, e é uma via conhecida de sequestro de conta justamente porque o email parte do remetente verdadeiro. A defesa não é sanitizar o header: é não confiar nele para nada que saia do servidor — a URL pública fica numa variável de ambiente, como APP_URL. Para a leitura da requisição, o padrão seguro é uma base fixa e descartável, do tipo new URL(req.url, "http://interno"), deixando claro que aquele host não significa nada. E, quando o servidor está atrás de um proxy, lembre que X-Forwarded-Host e X-Forwarded-For têm exatamente o mesmo problema: só valem se o proxy os reescrever.